Dica de Leitura | Cânone Gráfico, por Artur Tavares

Receber recomendações e dicas de leitura é sempre bom, ainda mais vindas nesta época do ano em que os 13º salário está recheando as carteiras dos ávidos leitores e colecionadores… E receber dicas de leituras de quem é do ramo então torna as coisas ainda melhores.

Desta vez quem colabora aqui com o Ponto Zero é Artur Tavares, editor da HQM Editora (AQUI e AQUI) que, entre outras coisas publica nada mais nada menos que The Walking Dead, todo o material recente da Valiant, Dark Horse Apresenta, Invencível, Zero Poin, Spawn e materiais diversos no segmento de HQs que você pode encontrar disponível na loja virtual da editora AQUI.

O texto abaixo foi originalmente escrito por Artur como recomendação de leitura nos grupos que comumente participa no Facebook. Os grifos no texto foram edições aqui no PZ, seguimos a mesma dinâmica de nossos textos, estatizando o nomes de artistas e datas importantes.

1377336_10152519470132322_1479051877067169575_nQuando vi o enorme volume de Cânone Gráfico na Comix, durante a tarde de autógrafos do Zero Point (conheça um pouco mais AQUI), me lembro de ter ouvido de canto “nunca teria coragem de ler um negócio desses.” Sim, é um volume “assustador”.

São mais de 400 páginas de adaptações literárias, que vão desde a Epopeia de Gilgamesh – a primeira história escrita da humanidade –, até meados do século XVII, com Ligações Perigosas.

O volume para neste período porque haverá a publicação de mais dois livros, um com histórias que vão até o final do século XIX, e um exclusivo para o século XX.

A leitura de Cânone Gráfico não é simples, tampouco fácil. Existe uma variedade enorme de formas artísticas exploradas na publicação, desde quadrinhos tradicionais até pinturas, gravuras, diagramas.

Houve liberdade total para os artistas da publicação, e a maioria das histórias é original, salvo algumas republicações como as de Robert Crumb, e da série Filósofos em Ação, de Fred Van Lente (publicadas aqui no Brasil pela Gal)

O apanhado literário de Cânone Gráfico é delicioso. Mesmo sendo uma publicação originalmente norte-americana, não é voltada para o mundo anglófono. As histórias, em ordem cronológica, começam na Mesopotâmia, passam pela Grécia, China, as regiões hebraicas e árabes, a América pré-colombiana, a Europa medieval, abrangendo Espanha, França, Inglaterra, e então o novo mundo, os Estados Unidos.

Infelizmente, em nenhum dos três volumes há obras brasileiras, mas o terceiro apresenta alguns latino-americanos: Borges, García Márquez, e Gabriela Mistral.

Em termos artísticos, a variedade também é de encher os olhos. Há trabalhos maravilhosos. Kent Dixon já quebra tudo em Gilgamesh com seu estilo cartunesco. Tori McKenna resume Medeia de forma magistral. Rick Geary enche de psicodelia o livro bíblico do Apocalipse.

Molly Arp faz uma experimentação de quadros em O Pescador e o Gênio, conto das Mil e Uma Noites. Em tons azulados, Conor Hughes faz uma das versões mais etéreas de Jornada ao Oeste. Como grandes vitrais de igrejas, Edie Fake narra As Visões de Santa Teresa D’Ávila.

Totalmente recomendado para maiores de idade, o Cânone Gráfico aborda sem pudores temas escatológicos, como a comédia Carta Real à Academia de Bruxelas, de Benjamin Franklin; assim como o sexo, onde os destaques são A Pulga, adaptado por John Donne; “Conselho a Um Jovem Em Busca de Uma Amante”, também adaptado de um texto de Franklin; Diário Londrino, a obra adaptada por Crumb; e meu favorito de todo o volume: Lisístrata, uma história da Grécia Antiga originalmente escrita por Aristófanes.

Lisístrata é uma comédia sobre a Guerra de Troia, que aborda a situação das mulheres que ficaram em Atenas enquanto seus maridos guerreavam fora das fronteiras da cidade. É aí que uma mulher, Lisístrata, clama para que todas as atenienses entrem em greve de sexo durante as folgas de seus esposos, forçando-os a voltar para casa e colocar um fim à guerra. Todas juram seguir os votos de castidade, mas nenhuma consegue permanecer sem transar, gerando situações e diálogos completamente divertidos.

A edição da Boitempo (AQUI) é primorosa. Há uma preocupação absurda no cuidado das traduções das histórias. Isso, inclusive, acaba tornando o volume chato quando as histórias entram na Idade Média. O texto passa a ser rebuscado, cheio de floreios, complicado. Obviamente, é melhor que seja assim, mas isso exige uma paciência e disposição maiores do leitor.

A trilogia Cânone Gráfico em sua versão original
A trilogia Cânone Gráfico em sua versão original

Não fosse o bastante, cada história é precedida por um texto de abertura, que serve para contextualizar o leitor sobre cada um dos autores originais, os artistas que estão adaptando as obras, o período histórico em que os textos foram escritos, bem como algumas outras anotações.

Já no fim do volume, há páginas dedicadas às biografias de cada um dos artistas que participaram do volume, bem como uma outra sessão dedicada exclusivamente às traduções das obras para inglês, detalhando aos leitores o que eles encontraram nos textos das mais variadas editoras que publicaram as obras nos EUA.

A Boitempo complementou este último catálogo com referências às edições brasileiras que tais obras tiveram, facilitando a vida do leitor ávido pela literatura fora dos quadrinhos.

Quanto ao preço, R$ 120,00 em média, só tenho a dizer que ele é extremamente justo para aquilo que o volume se propõe. O livro tem papel off-set de boa qualidade, um acabamento resistente, e, como eu disse antes, um ótimo trabalho editorial.

Você pode até achar que está pagando caro, mas saiba que você está pagando por um serviço primoroso.

Como registrado no fim do livro, a tiragem inicial de Cânone Gráfico foi de 3 mil cópias. Não sei quantos leitores usuais de quadrinhos irão comprar a obra, mas, como é um volume dedicado às livrarias, duvido que a Boitempo vá sair perdendo.

Cânone Gráfico é uma oportunidade sensacional para que muitos de vocês abram a mente sobre o porquê quadrinhos são considerados acima de tudo arte, e não entretenimento.

Cânone Gráfico | Dados da Publicação

  • organização: Russ Kick
  • autores: Hunt Emerson Peter Kuper Robert Crumb Will Eisner
  • título original: Graphic Canon
  • páginas: 456
  • ano de publicação: 2014
  • isbn: 9788575593998

 

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