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Planeta dos Macacos: O Confronto – Somos todos macacos?

“Uma crescente nação de primatas geneticamente modificados e liderados por César é ameaçada pelos sobreviventes humanos de uma alarmante epidemia viral desencadeada há uma década. O momento de paz em que se encontram está fragilizado e dura pouco, quando os dois lados são levados à beira de uma guerra que determinará quem será a espécie dominante da Terra.” – Sinopse oficial no site do filme

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Cartaz impressionante o.O

 

Antes mesmo de assistir ao Planeta dos Macacos: O Confronto, estava rolando o comentário de que ele seria, para o Planeta dos Macacos: A Origem, o que o Batman: The Dark Knight foi para o Begins. Devo confessar que considero uma analogia bastante aguçada.

Embora o nome do filme nos remeta à ideia de um enredo prioritariamente violento, o confronto não se resume às incríveis sequências de ação. O diretor Matt Reeves nos traz um nível de confronto mais psicológico, cultural, um confronto entre sociedades oriundas de contextos completamente diferentes, quase antagônicos.

Durante esses dez anos decorridos desde o primeiro confronto na famosa Golden Gate Brigde em São Francisco, os primatas conseguiram organizar uma sociedade surpreendentemente bem estruturada, sob a liderança visível de Cesar, que emana aquela autoridade inerente aos membros mais equilibrados e inteligentes de um grupo. O ambiente construído por eles transparece uma vida relativamente tranquila e harmônica, ainda que pequenos conflitos e problemas de força maior sejam sempre inevitáveis.

O contraste com o reduto dos humanos que sobreviveram à gripe dos macacos é gritante. Também pudera, a espécie que predominou sobre o planeta por alguns milhares de anos aparentemente tem bastante dificuldade para se adaptar a uma vida sem o nível de conforto e civilidade que conhecemos hoje. Nem é preciso ser muito criativo para gerar um elemento de conflito para um enredo tenso envolvendo o futuro da humanidade: o fim próximo do estoque de energia disponível.

Mas não se engane, o tema absolutamente atual não deixa o filme cair no lugar comum justamente pela presença da sociedade primata, organizada em torno de onde reside a esperança de sobrevida para os humanos. Existem alguns furos no roteiro? Talvez, dependendo do que você considere um roteiro furado. Eu costumo dar uma “licença poética” bem flexível para determinados tipos de filmes (um beijo, James Bond!), e os detalhes que podem incomodar alguns espectadores, eu prefiro deixar por conta da fluidez da história. De forma menos polida: se gosta de realidade, vai ver jornal, está cheio de casos quase inacreditáveis, porém verídicos, para saciar esse desejo.

Andy Serkis vs. Caesar
Andy Serkis vs. Caesar

O elenco do filme faz o seu trabalho com resultados bastante satisfatórios, com destaque para Andy Serkis, equilibrando com maestria seus aspectos primatas e humanos. Não podemos deixar também de reconhecer a CG impecável do filme, ainda que o 3D, mais uma vez, praticamente se restrinja às legendas mais pertinho da plateia. (Ok, conto nos dedos de uma mão os filmes que valeram a córnea esquerda deixada na bilheteria e o rim direito em troca de pipoca na bomboniere).
A fotografia é encantadora sob pontos de vista diferentes, tanto nas cenas do bosque explorado pelos primatas quanto nos detalhes escolhidos para retratar uma São Francisco abandonada, tomada pelo mato e cheia de sinais de civilização atravancando o caminho. Aliás, este se torna o cenário perfeito para o tal confronto mencionado no título do filme, e aqui não entrarei em detalhes para não frustrar nenhum leitor. A trilha sonora também faz o seu papel, sem ter um destaque exacerbado.

 

No final das contas, é um filme daqueles para se repensar a vida, a sociedade, o capitalismo, a pesquisa científica e a instituição da família. Mas, principalmente, para repensar nosso impulso quase irrefreável de rotular e julgar aquilo que vemos antes de realmente ter um contato próximo com o objeto de nosso preconceito, de compreender os contextos de cada indivíduo, e as motivações por trás de cada gesto. Um filme que nos lembra, a todo momento, que toda história tem, no mínimo, duas versões verdadeiras.

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Formada e especializada em design (produtos e gráfico), resolveu fotografar cultura e arte nos intervalos da carreira acadêmica. Optou por não ser rica e trabalhar sem férias no que a faz feliz, unindo ganha-pão e diversão.

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