Guerra Mundial Z – Uma história oral da guerra dos zumbis

Escrito por Max Brooks, mesmo autor de O guia de sobrevivência a Zumbis, Guerra Mundial Z (GMZ) é uma obra que dá para ler quase de um fôlego só, não fosse seus inúmeros detalhes técnicos, notas de rodapé e outros adendos.

O livro vai pausando a leitura que alterna entre histórias de todo tipo, mas basicamente divididas em blocos maiores sobre a “estrutura” da guerra contra o Zs, apelido carinhoso dado aos zumbis na obra de Brooks.

Basicamente Guerra Mundial Z se divide em nove tomos gerais que vão desde os primeiros momentos do surto e o paciente zero, até a retomada do território dos países do mundo, passando pelo chamado “grande pânico”, revide organizado pelas Nações Unidas, chegando as despedidas entre o jornalista que registra cada depoimento e seus entrevistados.

max brooks

Cada tomo tem sua dose de histórias individuais dentro das fases da infestação que quase varreu a raça humana do planeta… tem relato de todos os lugares do mundo, pequenas aldeias, grandes aglomerados urbanos, campos de batalhas entre os Zs e os exércitos do mundo todo em diferentes ocasiões, relatos de astronautas da Estação Espacial Internacional, seguranças privados e mercenários… Brooks não economizou nos tipos humanos de seu livro.

Guerra Mundial Z não é um livro sobre zumbis, é um livro sobre pessoas em meio a uma infestação de zumbis… cada história tem seu mote e mostra a versatilidade e criatividade de Brooks no trato com uma tema já exaustivamente abordado por diversos filões do mercado de entretenimento.

Filme de zumbi, game de zumbi, HQs de zumbi, comédias com zumbi, séries com zumbis e por aí vai, diante de tanta diversidade, ver o modo como a hstória oral é usada para dar corpo a Guerra Mundial Z é realmente algo que aproxima o leitor de cada relato. A abordagem? Brooks opta pelo zumbi científico, oriundo de uma infecção de origem desconhecida.

Brooks é detalhista, até didático e tecnicista na descrição de alguns pontos sobre tecnologia e aparato militar e estatísticas e números. Não sou conhecedor dos termos e nem da real existência de alguns dos aparatos e armas citadas ao longo da obra, mas da maneira como são utilizados, é bem provável que sejam no mínimo inspirados em algo realmente existente.

O relato da grande batalha de Yonkers é recheado de informações e detalhamentos sobre o equipamento militar de ponta usado para o combate.

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Ouso dizer que é um do momentos altos do livro e acredito, são muitos… Inclusive é neste relato da batalha que entendemos os motivos do grande avanço dos Zs contra a população e de como a guerra tecnológica convencional empreendida pelo exército americano era completamente ineficaz contra inimigos irracionais, quase invencíveis e sem nenhum tipo de medo.

Os Zs avançavam sobre as pilhas de seus pares sem se importar com os tiros e explosões do cerco militar, mesmo que muitos fosse abatidos, outros tantos se erguiam quando a baixa vinha do exército humano… um humano morto é sempre um zumbi de pé…

Falando no exército, apesar da obra ter o pesado título de Guerra Mundial, é no trato do indivíduo que a obra ganha o leitor. O médico, o mergulhador, o padre russo, o ex-vice presidente americano, o astronauta, o militar que esteve no primeiro confronto e no último também, o jardineiro japonês cego, o otaku alienado do mundo, os soldados insurgentes russos, o mega-empreendedor do setor farmacêutico que criou uma vacina falsa, o cadeirante voluntário de patrulha, o treinador de cães farejadores de zumbis…. cada um tem um aspecto a ser relatado e todos dotados de suas próprias experiências e personalidades.

Cada um é sempre abordado de forma bem humana e a maneira como o texto é construído, o leitor desavisado poderia realemte acreditar que Brooks esteve um dia diante de alguma daquelas pessoas tão humanas.

Claro, além de explorar o drama o humano e sensibilizar seu leitor, Brooks explora toda a estrutura que surgiu pelo mundo para evitar nossa extinção. Departamentos inteiros são criados para gerir um novo estilo de vida e sobrevivência adotado pelos humanos diante de seus novos predadores.

Toda a estrutura criada para mudar a postura da pirâmide social é abordada por Brooks, sobretudo na forma do DeStReS, o Departamento de Recursos Estratégicos, comandado por Arthur Sinclair Junior, descrito por Brooks como um típico aristocrata pré-guerra: alto, magro, cabelos grisalhos de corte rente, um sotque afetado de Harvard, fala par ao Éter e raramente olhava nos olhos de seu entrevistador.

Foi uma das ocasiões que notei como o autor é bem humorado e por vezes mordáz,  dando a seus personagens falas ferinas e não poupando críticas sociais, culturais e de toda ordem ao modo de vida do ser humano médio da era pós-moderna. Sobretudo críticas aos americanos…

Guerra Mundial Z é uma obra construída não para ser uma narrativa completa no todo, cada relato é um pequeno conto, mas acho interessante ir pelo começo da obra e seguir os relatos de forma cronológica, pois apesar de serm auto-suficientes em si mesmo, há ocasiões que Brooks cita personagens, situações e departamentos que fazem parte da ação de alguma história mais avançada.

Além do mais é interessante notar a curva crescente que a narrativa impõe ao leitor à medida que vamos avançando na progressão do surto.

Capa variante de Guerra Mundial Z e O giua de sobrevivência a Zumbis
Capa variante de Guerra Mundial Z e O giua de sobrevivência a Zumbis

Seguindo a corrente dos relatos na cronologia, fica mais evidente a questão de que os zumbis aqui presentes não perpetuam um terror sobrenatural como comumente associamos aos mortos-vivos deste tipo, aqui o terror presente é algo diferente, algo urbano, algo social e psicológico… nossa raça se quebra, nossa sociedade se quebra, nossas cidades se quebram e o espírito humano se quebra diante do inimigo que não para seu avanço.

Brooks não cria um livro de heróis sequer minimamente parecidos com o personagem interpretado por Brad Pitt na adaptação cinematográfica, aqui não há heróis, há apenas pessoas comuns tentando sair caos da morte que anda… ah sim, bom lembrar disso, aqui não há os zumbis corredores do filme, não há as pilhas absurdas capazes de atingir até mesmo helicópteros em pleno voo e não, aqui a Muralha de Israel não tomba como no filme.

O livro é para “paladares” mais sensíveis, o filme? É dispensável por inúmeras razões, a primeira delas é tirar a guerra de todos nós e entregar a Brad Pitt… e tudo numa correria entediante, or mais paradoxal que isso possa parecer.

Em meio as muitas ideias boas que Brooks nos presenteou, algumas surgem timidamente ali pelos relatos, mas são extremamente inquietantes por refletirem os estilhaços e frangalhos em que ficamos. Em um dos últimos relatos do tomo Guerra Total, narrado por Todd Wainio, alguns dessas boas ideias são postas em foco novamente durante o período da retomada de território contra os Zs.

Olhando assim dava até para empolgar...
Olhando assim dava até para empolgar…

Wanio fala das dificuldades de lidar com as crianças selvagens nesse processo. Eram crianças sobreviventes que vagavam e cresciam solitárias como animais de qualquer outra espécia, arredias por natureza, tentavam a todo custo escapar dos zumbis e ao mesmo tempo atacando os humanos.

Outro conceito que Wanio aborda em sua narrativa são os LaMoEs (Last Men on Eath, Últimos homens na Terra), sobreviventes que se protegiam a todo custo, tomando para si construções inteiras ou áreas e terrenos inteiros como pequenos feudos.

Como consta no relato, alguns eram homens de bem apenas tentando se proteger, mas em grande parte havia os saqueadores e oportunistas, suas minas terrestres ou armadilhas que disparavam espingardas no meio da floresta. Muitos desses homens estavam dispostos a lutar e morrer pelo conquistado, outros apenas assutados demais para entender que o surto estava sendo dizimado do mundo.

Por fim, havia os quislings, humanos com graves transtornos a ponto de imitar os zumbis em praticamente tudo que estes faziam. Os quislings atacavam para matar e devorar humanos sem nenhuma explicação aparente a não ser um surto de loucura extrema devido as situações acarretadas durante a grande epidemia.

Não sei se Max Brooks é um bom narrador, Guerra Mundial Z foge do padrão da narrativa clássica e não li mais nada do autor que seja nesse estilo para dar uma opinião sobre o autor de forma geral, mas não há dúvidas que o cara é um excelente escritor, tem sensibilidade e acima de tudo, é extremamente criativo. Guerra Mundial Z não é um livro comum, sua estrutura na forma de relatos colhidos em entrevistas quebra o processo narrativo devido a seus saltos no espaço e no tempo, seus personagens são diferentes a medida que um ser humano de um país é completamente diferente do outro e isso só é conseguido pela versatilidade dos personagens de Brooks e das situações extremas as quais foram expostos no livro.

É difícil dizer, entre tantas histórias, situações e personagens apresentados no livro, qual é o melhor… seria injusto até mesmo detalhar melhor alguns para dar mais intensidade a este texto, acho que a experiência direta com a obra é a melhor maneira de tirar conclusões sobre estes aspectos. Particularmente fui me identificando com os personagens de acordo com o começo de seus relatos, alguns bem impessoais, outros mais técnicos ou intimistas ou simplesmente distantes de tudo.

Guerra Mundial Z, o livro, é de longe uma das melhores coisas que já li sobre e com o tema zumbis, não sou especialista no assunto e confesso ser bem distante no tema, mas como disse bem lá no começo do texto, o livro da guerra contra os zumbis não é nem sobre guerra e nem sobre zumbis, é sobre pessoas, pessoas diante do apocalipse mais horrendo e medonho possível: os mortos de pé.

Max Brooks não está no top à toa, o cara sabe escrever e não nega a ninguém: George A. Romero é uma de suas grandes inspirações… o mestre ensiou, seu discipulo aprendeu bem.

Sobre o filme? Esqueça que existiu aquile troço cheio de situações bestas, excessivamente forçadas e um final igualmente chato e forçado… vá ler o livro, isso sim é obra para os fãs do tema e que não duvida do intelecto de seu apreciador.

Ficha Técnica e sinopse

Com Guerra Mundial Z, o norte-americano Max Brooks faz uma paródia dos guias de sobrevivência convencionais e expõe a paranoia coletiva que tomou conta do mundo, em especial dos Estados Unidos, na era Bush. No livro, que dá continuidade ao bem-sucedido O guia de sobrevivência aos zumbis, o autor adota um tom científico nas pretensas entrevistas que conduziu com os sobreviventes do ataque que quase extinguiu a humanidade.

O narrador de Brooks é um integrante da comissão da ONU encarregado de elaborar o relatório sobre o assustador conflito que quase aniquilou o planeta. Da identificação do paciente zero, contaminado nas ruínas de Dachang, na China, até Mary Jô Miller, a arquiteta de elite que pode pagar para se proteger, passando pelo depoimento de um soldado da infantaria que lutou no conflito, nada escapa à verve do autor.

Irônico, Brooks destaca ainda o quanto os homens são ingênuos em achar que podem se defender de pragas e criaturas alienígenas. Governos corruptos e com interesses eleitoreiros podem destruir qualquer Departamento de Defesa, ou conduzi-lo para o front errado. O autor mostra ainda como as sociedades desmoronaram e foram forçadas a se reorganizar após o colapso das instituições que as mantinham, levando as pessoas a atos extremos de heroísmo e altruísmo, bem como de egoísmo e mesquinhez.

Além de recorrer ao fantástico para traçar um painel das reações humanas diante de crises e tragédias inexplicáveis, Brooks tece comentários ácidos sobre temas diversos como o autoritarismo na China e na União Soviética; a falsificação de relatórios de inteligência por parte do governo dos Estados Unidos para justificar a invasão ao Iraque em 2003; o impacto social e ambiental de grandes empreendimentos como a represa de Três Gargantas, na China; a opressão imposta por regimes fundamentalistas, como o talibã no Afeganistão e o tráfico internacional de órgãos, envolvendo países como o Brasil.

  • Autor: Max Brooks
  • Tradução: Rita Vinagre
  • Preço: R$ 36,00
  • Páginas: 368 pp.
  • Formato: 14×21 cm
  • ISBN: 978-85-325-2555-0
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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