Episódio piloto de Constantine

O advento da Internert permite de tudo mesmo. O navegante atento e bem articulado nos meandros da Web sabe onde, quando e como achar um pouco de tudo e quando não acha, alguém dá um jeito de lhe jogar no colo alguma coisa de seu interesse ou que passa a ser de seu interesse…

Com base nisso tem sido cada vez mais comum os “vazamentos” de filmes inteiros, games e episódios piloto do séries cuja data de estréia será meses adianta. Não foi diferente com a mais recente produção do canal NBC: a série Constantine (veja nossas expectativas AQUI), baseada nos quadrinhos Hellblazer do selo Vertigo da editora americana DC Comics.

Entretanto o que já circula pela boca pequena da rede virtual é que o tal “vazamento” foi algo proposital por parte da produção da série para servir como termômetro da opinião do público antes da estreia oficial prevista para o mês de outubro próximo. Um dos fatores que mais corrobora para essa fofoca virtual diz respeito a qualidade dos arquivos encontrados para download: tudo muito bom, boa qualidade de audio e vídeo, toda a pós-produção já finalizada e coisas do tipo, tudo muito certinho.

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Vai um cigarrinho aí, John?

Com um mercado crescente de séries adaptadas de HQs como Agentes da Shield, Arrow e as vindouras DemolidorGotham e Flash (que também teve seu piloto “divulgado” na rede), não seria de todo uma má estratégia por parte da NBC disponibilizar esse providencial “vazamento” e já cativar de antemão a audiência desse tipo de adaptação, geralmente dividida em dois grandes blocos: os fãs da mídia original e os fãs de seriados em geral… seria uma boa ideia, não fosse a qualidade do material apresentado no piloto de Constantine.

Em um olhar isolado ao episódio piloto, não chego a dizer que a série é ruim, mas também ficou abaixo das expectativas. Já disse, não é um episódio ruim, mas se comparada com outras séries de segmento e temáticas similares como, por exemplo, Penny Dreadful (veja nossas expectativas a partir do episódio de estreia AQUI), Constantine largou atrás, muito atrás… haja vista que Penny Dreadful tem uma abordagem do ocultismo, terror e criaturas do imaginário assombrado contando com apuro estético e de produção beirando o impecável, sem esquecer de mencionar os ótimos diálogos e interpretações do elenco, sempre afinadíssimo com seus personagens e conflitos entre eles.

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Repito, a série não é ruim, mas fica abaixo do que se espera do mundo oculto de John Costantine, a começar por isso, o oculto da série é velado demais, escancarado demais. “E isso é ruim Orlando?”, você me pergunta… e eu respondo: não, não é ruim, mas tira boa parte do charme e da graça de permitir ao leitor pensar por si mesmo, criar certas coisas em sua mente.

Ao optar por explicitar demais o que deveria ser mais sutil e macabro em prol de algo mais aberto e exagerado, Constantine acaba perdendo força na tensão e no terror que na telessérie é mais voltada para os olhos do espectador que sua mente. Se bem que não vi nada ali que colabore muito para a utilização do termo “terror”…

O episódio começa bem e situa o espectador no ambiente de um hospital psiquiátrico no qual se encontra o protagonista da série em fase de tratamento para superar um trauma de seu passado já meio distante. Nesse ponto não tem como não lembrar das HQs, pois esse acontecimento se reporta a Newcastle e o demônio Nergal, figura que assombra Constantine o tempo todo.

Constantine-Matt-Ryan2A premissa começa já bem interessante, apresentando pedaços do passado do mago inglês interpretado pelo ator Matt Ryan que alterna altos e baixos como John Constantine.

Ora Ryan consegue emplacar a personalidade do mago muito bem, sendo mordaz, irônico e ao mesmo tempo desinteressado com o que está havendo ao seu redor; em outros momentos o ator soa completamente canastrão e deslocado em meio ao caos que se ergue na trama que, como disse anteriormente, segue em ritmo acelerado para cumprir o tempo padrão de um episódio de seus 50-60 minutos.

Algumas cenas pontuais da série me chamaram muita atenção pelo excesso: o exorcismo realizado ainda no espaço do hospital que é puro exagero e filme-firula, com a garota possuída voando pela sala de recreação artística enquanto John recita palavras em latim para expulsar um demônio que lhe manda um recado bem claro: Liv vai morrer…

Depois disso também achei gritante e desnecessário abrir uma cratera no meio de uma rua para John bater um papo com um anjo que vem para lhe avisar que algo maior está vindo adiante…

E a Liv (Lucy Griffiths) que vai morrer é a filha de um antigo amigo de John e por ser intimamente ligada ao mundo do sobrenatural, corre grande risco no fogo cruzado no qual se encontra o nosso mundo, mesmo estando alheio a esse outro mundo oculto.

Personagem criada exclusivamente para o seriado, Liv é filha de um amigo de Constantine que também era ligada as artes do oculto e que pede ao mago inglês para proteger sua filha deste mesmo mundo de forças sombrias quando a ocasião se fizesse presente na vida da moça… daí em diante é tudo muito previsível e escancarado: é buraco se abrindo no meio da cidade, dispositivos elétricos e lâmpadas oscilando o tempo todo, é morto dirigindo ambulância, é fio elétrico atravessando gente, é coluna de fogo subindo aos céus e por aí vai…

As caracterizações e a ambientação da série está bem situada no espaço, mas ainda assim parece bem genérica, nada muito emblemático ou que dê um ar mais soturno ao material geral, achei que faltou acabamento para dar um climão mais melancólico e cinzento, características que sempre associei ao estilo do personagem.

A direção também não parece muito esforçada para que isso ocorra, pois é claro que, ao menos neste episódio piloto a tônica era mesmo algo mais ação e menos efeito psicológico do sobrenatural/oculto, o que resta saber agora é se essa vai ser a tônica geral da série.

Com sua estreia marcada para outubro, a série já teve sua primeira baixa: Lucy Griffiths abandona o barco antes disso ocorrer e participa apenas desse piloto. Segundo informações do site Hollywood Reporter, a personagem de Liv vai dar lugar a Zed, personagem que é conhecida dos leitores de Hellblazer, o que provavelmente tende a aproximar um pouco mais o material televisivo da fatia de fãs das HQs, público esse que, aparentemente em sua maioria, não teceu críticas positivas ao piloto do seriado.

Além de Zed também foi dito que outros personagens conhecidos dos fãs irão aparecer no seriado, seguindo a fórmula do que já vem sendo feito em outros exemplares como os já citados Arrow que introduziu o Flash para seu próprio seriado e Agentes da Shield que trouxe a personagem Sif dos longos de Thor para participar de um episódio.

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Falando em críticas negativas, dentre a principal reclamação dos fãs do personagem está a quase total ausência do cigarro, vício e companheiro constante de John ao longo das 300 edições de Hellblazer pelo selo Vertigo… salvo uma menção no final do episódio, nada do personagem ter um cigarrinho indo e vindo por entre os lábios, nem de fumaça sendo exalada pela boca ou narinas…

Ok, tem desculpas para isso: a legislação americana para programas televisivos proíbe sobre pena multa a apologia ao fumo nesse tipo de programas. Resumo: os fãs vão chiar, reclamar, mandar ao inferno todo mundo, mas John Constantine não vai aparecer fumando de forma direta na série.

O que é uma pena, haja vista que é em decorrência desse vício que John adquire câncer e entra em uma de suas fases mais emblemática nas HQs: Hábitos Perigosos, oportunamente republicado na forma de encadernados pela editora Panini… claro, é cedo para descartar a possibilidade do arco ir para a telessérie, mas fica estranho um fumante inveterado não aparecer inveteradamente fumando.

Segundo os boatos que rolam na rede virtual, há a possibilidade do episódio piloto “vazado” ser descartado pela NBC junto com a personagem Liv para o restante da série que teria um novo episódio de reintrodução e abertura de temporada, mas nada disso é oficial e nem confirmado, até outubro, a previsão é de que o piloto continue e Liv apenas não seja mais a companheira de caça ao mundo oculto com Constantine, dando espaço para Zed.

Daniel Cerone escreve e trabalha os roteiros da série ao lado de David Goyer, o episódio piloto teve direção de Neil Marshall. Estamos na torcida para que o negócio ande bem para o mestra das artes ocultas e que o seriado pegue um ritmo melhor e mais bem conduzido do que esse piloto corrido.

Com o filão das adaptações cada vez mais forte, não seria muito prudente desperdiçar um material tão bom quanto o que se encontra em Hellblazer, ainda mais que, se bem conduzido por um roteiro melhor e diálogos mais elaborados, sem sombra de dúvidas Matt Ryan poderia render um Constantine memorável.

 

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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