Penny Dreadful se apresenta com excelente episódio de abertura

-Precisarei de você daqui uma hora; temos um compromisso.
-Aonde vamos?
-Para entre as coisas mortas…

Nunca fui muito de acompanhar séries, as que acompanhei foram justamente aquelas que, desde os primeiros momentos, me prenderam em seu universo através da convergência de diversos fatores: elenco, premissa geral, ambientação, diálogos, efeitos especiais quando necessário, subtramas ocorrendo em paralelo, bons personagens sustentados pelo elenco principal e seus coadjuvantes, boa direção etc.

Tudo isso e mais um pouco são coisas que considero essenciais para um processo imersivo realmente eficaz em quase todo e qualquer tipo de obra, sobretudo em uma mídia que prescinde de tempo para contar sua história como é o caso das séries.

Com o advento de produções cada vez mais esmeradas e de conteúdo cada vez mais elaborado, essa fatia de mercado se tornou a tábua de salvação de muitos canais de tv, tanto aberta quanto fechada, e Penny Dreadful é mais um desses adventos e contém tranquilamente todas as características necessárias para ser um sucesso de crítica e público nesse segmento. Já me fez mergulhar fundo em seu mundo.

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Penny Dreadful é uma série do canal Showtime roteirizada por John Logan com Sam Mendes como produtor executivo (respectivamente roteirista e diretor de 007 – Operação Skyfall). O elenco escalado pela dupla é de primeira e é encabeçado por Eva Green (Vanessa Ives), Timothy Dalton (Sir. Malcom Murray), Josh Hartnet (Ethan Chandler) e Harry Treadaway (Victor Frankenstein), que são acompanhados de outros nomes que se destacarão com toda certeza ao longo da série.

O episódio de abertura da primeira season de PD já chegou mostrando a que veio, a produção da telessérie não economizou na caracterização da Londres vitoriana, de forma a mostrar algo bem sombrio, macabro, cheia de tons de cinza, mistérios e perigos além da compreensão humana se espreitando por becos, porões úmidos e de ar fétido.

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Vanessa Ives (Eva Green) e Sir. Malcom Murray encabeçam uma busca pela filha desaparecida de Malcom no submundo londrino, busca este cercada de segredos e de camadas ocultas de significado e intenções. Fica claro que essa busca já está em curso quando nos deparamos com a dupla de personagens vagando pelas ruelas da cidade.

Mais adiante, como o próprio Sir. Malcom nos fala, estamos diante de “um mundo entre o que sabemos e o que sentimos”, “um lugar em que ciência e superstição andam de mãos dadas”. Antes disso o espectador é apresentado ao americano Ethan Chandler (Josh Hartnet), outro elo de mistérios e destaque na trama geral.

Chandler é um tipo de “ator” em excursão pela Europa em um show circense, no qual exibe grande perícia e habilidade ao gatilho, motivos que atraem a atenção da discreta Vanessa Ives. Chandler é o punho forte necessário para um trabalho perigoso e que necessita de suas habilidades, o cowboy americano é um excelente contraponto a tudo em PD que se reporta ao velho mundo: bruto, mal educado, deselegante e até fanfarrão ao estilo do bom cowboy americano, é o personagem que está diametralmente oposto ao charme e ao belo sotaque inglês que impera em todo o episódio, o que dá ao material essa exata medida do velho mundo que é a elegância, charme, mistério e decadência…

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Apresentações devidas, o elenco começa suas interações e a direção/produção competente da série vem à tona mais uma vez em excelentes diálogos e situações de tensão na busca pela filha de Malcolm. Como episódio piloto, nada é muito claro e o inimigo a espreita é uma força sombria que ronda a tudo e todos no decorrer do episódio. O figurino é igualmente impecável exatamente como toda a ambientação interna e externa, as primeiras criaturas a saírem das trevas também tem enorme apuro estético e acabamento visual.

E não para por aí… Penny Dreadful é uma grande mistura de lendas, criaturas, mitos, folclores e material de Literatura fantástica e de Terror/Horror dos quais vampiros e outros seres sombrios parecem ser apenas a ponta de um iceberg que flerta inclusive com a mitologia egípcia. Ao primeiro olhar, e a sinopse deixa isso bem claro, é impossível não pensar em PD como um desdobramento da Liga Extraordinária do inglês Alan Moore.

Junte elementos de várias obras e momentos em um único background fictício e use toda sua liberdade criativa para transformar essa obra em algo diferente. Isso é Penny Dreadful e seu esmero para fazer justiça aos nomes de peso aos quais recorre para contar uma trama intrincada e cheia de nuanças.

Como episódio de entrada, quase nada, ou melhor, pouquíssimo nos é revelado de imediato, o que, a meu ver, é excelente já na partida. Com uma trama complexa se desenrolando, Penny Dreadful nos deixa antever que a busca pela filha de Malcom é algo maior do que está ali na superfície do que falam os personagens e até mesmo o personagem que seria o “brutamontes brigão” da série parece ter segredos que intrigam até mesmo a sensitiva Vanessa e seus dons pouca esclarecidos, impressão ainda mais reforçada pela interpretação soberba de Eva Green a cada olhar, fala e semi-sorriso que a atriz nos presenteia ao longo do episódio.

Com certeza absoluta que será de Vanessa Ives que receberemos alguns dos melhores presentes dessa série que, já anuncia a cada gesto de Green um mistério a ser revelado, seja nas cartas ou em suas visões.

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O elenco masculino não fica por menos com Hartnet e Dalton interpretando diferentes estilos de cavalheiros e ambos esbanjam talento nos diálogos e cenas que participam. Malcom com toda sua experiência de longa data e Hartnet se mostrando realmente um ator versátil, como já havia dado sinais há tempos e os confirmado lá em Xeque-Mate.

Já o jovem Victor Frankenstein (Treadaway) é um verdadeiro ladrão de cena… com olheiras abissais, o personagem de Treadaway exala a arrogância e petulância do jovem gênio que não se dobra aos costumes e padrões de se fazer ciência dentro do que a sociedade quer que seja feito. Magro e de aspecto taciturno, o cientista Frankenstein de PD é a síntese do domínio da mente brilhante sobre o corpo franzino.

Conduzido de forma magistral, o episódio de estréia de Penny Dreadful engatilha várias questões e situações a serem exploradas nesta e nas vindouras temporadas. Os subtextos individuais de cada personagem, ao menos dos já apresentados, estão todos ali prontos para serem desnudados ao longo do tempo, o que, com certeza, prende a atenção de quem se identificou com os personagens e com o elenco, ou simplesmente se interessou pelo novo playground pelo qual passarão algumas das criaturas mais emblemáticas de nosso imaginário. Penny Dreadful estreou no canal HBO, oportunamente em uma sexta-feira 13.

Lá fora a série já teve uma segunda temporada confirmada, dessa vez com 10 episódios e se me perguntarem do que se trata a série, digo sem medo: Penny Dreadful é a retomada do Terror/Horror verdadeiro após a banalização do sobrenatural e das forças ocultas com coisas como “vampiros que brilham ao sol” e lobinhos correndo descamisados por aí… é o sobrenatural, o terror e o oculto sendo tratados com o devido respeito e acima de tudo, com o devido medo que eles nos impõem. Adicionaria a isso o fato de que a série tem fortíssimo teor psico-gótico, com influência constante da literatura romântica inglesa.

Vale a pena? Sim, e muito… expectativas altíssimas para essa primeira season.

Penny Dreadful | Trailer

Penny Dreadful | Dados no IMDB

Penny Dreadful (2014–)
Penny Dreadful poster Rating: 8.2/10 (55,697 votes)
Director: N/A
Writer: John Logan
Stars: Reeve Carney, Timothy Dalton, Eva Green, Rory Kinnear
Runtime: 60 min
Rated: TV-MA
Genre: Drama, Horror
Released: 28 Apr 2014
Plot: Explorer Sir Malcolm Murray, American gunslinger Ethan Chandler and medium Vanessa Ives unite to combat supernatural threats in Victorian London.
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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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