A lenda dos 47 Ronins

Um universo fascinante de honra, lealdade e devoção.

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Como todo garoto que nasceu nos anos 70, minha porta de entrada no mundo das artes marciais foi através dos filmes do lendário Bruce Lee, contudo, em 1988 tive contato com uma obra que me arrebataria para sempre para o Caminho do Guerreiro (Bushidô). Aportava no Brasil pelas mãos da Editora Cedibra (que tinha o sedutor slogan “Rompendo as barreiras, criando o futuro!”), uma série de revistas da editora americana First Comics ( Bager, American Flagg, John Sable, Grim Jack entre outras)  todas em formato americano, porem uma se destacou de imediato, era Lobo Solitário, a saga de um Ronin e seu filho vagando pelo Japão Feudal, encontrando as mais inusitadas situações que envolviam honra, lealdade, paixão, ódio e toda gama de sentimentos explorados em historias de tirar o fôlego.

Um universo onde a honra era algo sagrado e no qual podíamos acompanhar duelos meticulosamente calculados, muito antes de Guy Ritchie usar como recurso narrativo em seus Sherlock Holmes a projeção dos resultados de um combate, antes do mesmo realmente acontecer, só pela analise das habilidades de seu oponente, Kazuo Koike e Goseki Kojima já faziam isto magistralmente em Lobo Solitário, foram 9 edições apenas, mas aquilo foi o suficiente para deixar qualquer leitor extasiado….

Depois do planeta Terra ter girado muitas vezes e muitas vezes em seu eixo imaginário, chegamos em 2013 e encontramos um Keanu Reevs resoluto e investindo pesado no mundo das artes marciais, seus mais recentes filmes são ambientados neste universo: Man of Tai Chi (sua estreia como diretor), e o épico Os 47 Ronins, ambos inéditos por aqui.

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Ao me deparar com os trailers de Os 47 Ronins, e ler uma nota que era baseado em uma historia real fiquei, curioso e, como todo bom fã do gênero, fui pesquisar um pouco mais sobre a premissa do filme e eis que me deparo com uma fantástica historia verídica com nuances de lenda.

O ocorrido nos remete a 1701, um tempo de paz durante o Shogunato de Tokugawa. O Shogun Tsunayoshi vivia e reinava em Edo (a sede do governo do Shogum), já o Imperador, que tinha seus poderes políticos limitados, vivia em Kyoto. Como uma forma de mostrar reverência para com o Imperador, Tsunayoshi enviava presentes para Kyoto, pois era período das celebrações do Ano Novo e, reciprocamente, o Imperador mandava os seus presentes de Kyoto para Edo. No desenrolar deste processo de troca de presentes Tsunayoshi enviou dois dos seus novos daimyos (senhor feudal) para ciceronear os mensageiros imperiais.

Naganori Asano-Takuminokami, senhor do castelo de Ako na província de Harima e Munehare Date, senhor de Sendai. Contudo havia um problema, os daimyos eram inexperientes para receber os nobres visitantes, sendo assim, o Shogun designou um alto oficial chamado Yoshinaka Kira-Kozukenosuke para lhes auxiliar na tarefa. Kira, um homem arrogante e de temperamento difícil, fez de tudo para provocar Lord Asano, pois Kira achava que o mesmo havia sido desrespeitoso por não lhe enviar presentes pelos seus préstimos. Depois de varias situações constrangedoras, Asano perdeu a paciência em um episódio no qual acabou por atacar com sua katana e ferir Kira, contudo o ato foi uma ofensa aos códigos de conduta da época, já que era proibido este tipo de ação dentro do castelo de Edo.

O Shogun Tsunayoshi ordenou que Lord Asano cometesse o sepukku (suicídio pela estripação), contudo Kira não sofrera qualquer punição, o que gerou certo desconforto na sociedade local. Depois deste evento, de acordo com as leis do período, quando um samurai cometia sepukku, suas posses eram confiscadas pelo Shogun, sua família deserdada, e os seus samurais eram ordenados a separar-se, tornando-se assim Ronins (um samurai dispensado do serviço ou sem mestre).

Aqui começa o ato de vingança calculado pacientemente, por cerca de dois anos os Ronins esperaram e planejaram, disfarçados e misturados ao povo como comerciantes, vendedores de rua e até o líder dos 47 Ronins Oshi assumiu às vezes de um bêbedo e jogador, tudo isso visando passarem despercebidos e para conseguirem informações sobre Kira, que permanecia atento e com espiões monitorando todos os passos dos antigos servos do Lord Asano, pois ainda temia um ato de vingança por parte dos mesmos.

Os relatos desta saga afirmam que na primeira oportunidade, quando Kira se sentiu seguro e relaxou em suas defesas, os Ronins conseguiram disferir um golpe fulminante na residência de Kira e concluíram sua missão de vingança. Os Ronins deram a Kira a mesma oportunidade que fora dada para o seu mestre, Lord Asano, morrer honradamente por sepukku, contudo Kira não conseguiu levar o ritual em frente e fora decapitado. O Soghum ficara tocado por tal ato de lealdade extrema aos preceitos do Bushido e após 47 dias de ponderações e da consulta de um sábio concedeu aos Ronins a oportunidade de morrerem por sepukku como guerreiros honrados e não como criminosos.

A lenda dos 47 Ronins é celebrada através dos tempos, por varias formas artísticas como cinema, televisão e mangás, contudo a mais renomada é uma peça teatral chamada Chūshingura que sempre leva seus espectadores as lágrimas, os túmulos dos lendários guerreiros são venerados por milhares de japoneses no Templo Sengakuji em Tóquio, os mesmos comemoram o aniversario de suas mortes com um festival.

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Pelos trailers divulgados a versão hollywoodiana mistura fantasia e realidade, afinal eles têm que manter o espetáculo, e chega às telas do Brasil em 27 de dezembro. Pelas previas divulgadas até agora, parece belíssimo, contudo não se pode mais confiar nas mesmas, já que ultimamente, mais que nunca, os trailers vendem gato por lebre, contendo na maioria das vezes o que há de melhor de muitos filmes ali naqueles poucos minutos.

Ficamos na torcida para que seja um bom filme, afinal Keanu Reeves não se sai tão bem nas telas já tem um tempo e, mesmo com sua atuação robótica, ele ainda é o canastrão mais legal de Hollywood, afinal ele sempre vai ser John Constantine e o super-homem da Matrix, Neo. Sugestão de leitura para quem deseja se aprofundar no Caminho do Guerreiro, o clássico absoluto Lobo Solitário (Panini comics no Brasil) e Hagakure: O Livro do Samurai (Editora Conrad).

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Fiquem com o belo trailer de Os 47 Ronins:

[divider]Trailer 1[/divider]

[divider]Trailer 2[/divider]

Ficha técnica:

  • Gênero: Ação
  • Direção: Carl Rinsch
  • Roteiro: Chris Morgan, Hossein Amini
  • Elenco: Brian Hirono, Cary-Hiroyuki tagawa, Haruka Abe, Hiroyuki Sanada, Jin Akanishi, Junichi Kajioka, Keanu Reeves, Kô Shibasaki, Masashi Fujimoto, Rinko Kikuchi, Tadanobu Asano, Takato Yonemoto, Tanroh Ishida, Togo Igawa, Yorick van Wageningen
  • Produção: Eric McLeod, Pamela Abdy, Scott Stuber
  • Fotografia: John Mathieson
  • Montagem: Craig Wood

 

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É Bacharel em Psicologia, porém optou por sua grande paixão trabalhando como ilustrador e quadrinhista. É sócio do Pencil Blue Studio e Ponto Zero, podendo assim viver e falar do que gosta: quadrinhos, cinema, séries de TV e literatura.

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