Almas selvagens – Parte 3: Grant Morrison e We3

Dando continuidade aos nossos textos sobre obras ficcionais que tem como tema a relação dos seres humanos com os animais e destes para conosco, nosso próximo autor é o escocês maluco e genial Grant Morrison, que forma, ao lado dos igualmente malucos e geniais Alan Moore e Neil Gaiman, a tríade que, na década de 80, deu fôlego e uma nova cara para as comics americanas dentro da casa de Batman e Superman.

we3_1O trio participou de obras que redefiniram todo o contexto e a forma de se fazer quadrinhos com obras como Watchmen, Sandman, Monstro do Pântano, Homem Animal, Patrulha do Destino, Batman Arkham Asylum e muitos outros grandes sucessos de crítica e público, seja pelas novas interpretações ou pelo modo como as histórias eram narradas através de tramas complexas, intrigantes e cheias de referências a outras formas de entretenimento como música, cinema e literatura, por exemplo.

Apesar de todo esse magnífico contexto histórico, meu foco em Morrison vai se deter em uma obra relativamente recente: We3, lançada em 2004 pelo selo Vertigo, com Morrison nos roteiros, claro, e a espetacular arte de Frank Quitely, um dos melhores desenhistas da atualidade, em minha humilde opinião.

We3 é o nome de um projeto militar e governamental para criar armas de guerra, utilizando-se animais com implantes cibernéticos e dotados de certa consciência e autonomia para realizar missões consideradas de alto risco para seres humanos normais.

Até aí tudo bem, é uma premissa interessante e até relativamente conhecida de outros meios, mas aqui é Morrison escrevendo e Quitely desenhando…

O que poderia ser simplesmente uma graphic novel pretensiosa e cheia de ação desenfreada e splash pages absurdamente bem desenhadas é, na verdade, uma história intimista com momentos de tensão, ação e sim, splash pages absurdamente bem desenhadas (ok, ok, sou fã do trabalho do Quitely :D).

Com poucos diálogos ao logo de muitas páginas, a história vai sendo narrada graficamente enquanto acompanhamos a fuga das três armas que dão título a obra (Weapon 3 que na contração em inglês fica como We Three, em tradução livre “Nós Três”).

Um cachorro, um gato e um coelho da pesada aprontam mil e uma confusões em uma fuga sensacional (voz da sessão da tarde OFF).

Os três animais são cyborgs equipados com o que há de mais moderno em armamento militar. Somando-se a isso seus instintos de sobrevivência, cada um dos pequenos animaizinhos é uma arma de destruição individual, mas ao mesmo tempo ambos funcionam como uma unidade tática agindo em conjunto para se preservarem nas mais adversas situações.

Com a ajuda da cientista Roseanne Barry, responsável pelo projeto junto aos militares, os We3 escapam antes de serem sacrificados para que se dê início à fase seguinte dos experimentos com animais.

Segue-se a isso uma verdadeira aula de narrativa visual. Aliando suas características próprias com seus respectivos armamentos, a unidade We3 ruma para “casa” em uma luta por sobrevivência a todo custo, já que cada pequeno animal do grupo tem sua própria história deixada nas entrelinhas entre um capítulo e outro da trama.

Ambos são animais domésticos “perdidos” em algum momento e lugar. Bandit, o cão labrador, Tinker, o gatinho malhado de nariz branco e por fim Pirata, o coelho com uma mancha no olho direito. O que se segue à fuga dos animais é o massacre das forças armadas diante do poderio bélico das criaturinhas e de suas estratégias de combate. A cria se volta contra seu criador, metáfora simples, clara e objetiva.

O que Morrison e Quitely nos apresentam em We3 é exatamente o mesmo que Wells e Coetzee também nos apresentam sobre a maneira como nossa espécie lida com outros animais: somos dominantes e podemos fazer com eles o que nos for conveniente, mesmo que isso implique dor, sofrimento, morte e desprezo por qualquer forma de vida que não seja a de alguns humanos.

Em We3 os animais fogem, lutam e matam para sobreviver e chegar em um “lar” que já não existe mais, e que, mesmo existindo, já não pode mais recebê-los em seu seio. E assim, aos poucos, Morrison vai diminuindo a ação frenética de sua obra, em uma descendente, mas uma descendente espetacular, invertendo completamente o ritmo da narração frenética para um olhar dramático pelos quadros ilustrados por Quitely.

O que era forte, intenso, violento e selvagem vai, página a página, se tornando triste, melancólico, fraco e cansado à medida que cada um dos três animais assim vai ficando.

O peso da guerra, os ferimentos de combate, as perdas no campo de batalha, a necessidade de estar “em casa”, tudo toma o lugar da guerra e, por vezes, é difícil não se importar com aqueles personagens de ficção ao imaginar um animal de verdade naquela situação tão dramática.

As sequências finais do combate são de tom praticamente melancólico. O que começou como uma aventura de ação e combates mortais vai se encerrando com um gosto de sangue na boca, quando cada pequeno animal vai tendo sua armadura desmantelada aos poucos, quadro a quadro das páginas.

Ao lado de um novo dono, deixando para trás os horrores que a humanidade lhes impôs, o que sobra dos We3 encontra um novo “lar”… e a sensação que fica é que o lugar que chamamos de “casa” nem sempre é o nosso lar.

Almas Selvagens – Entre mortos e feridos

Encerro aqui este especial, não sei realmente se atingi meu intuito com estes textos, sei que o tema é e vai muito além do pouco que pude falar nestes três momentos, mas tenho grande afinidade com a vida animal que, por vezes, parece bem maior que a que tenho por certos seres humanos.

Como obras ficcionais, “A ilha do Dr. Moreau” de Wells, “A vida dos animais” de Coetzee e We3 de Morrison e Quitely são obras que, ao falarem do que nós seres humanos achamos que pode ser feito com animais, nos revelam que de civilidade e respeito pelo outro pouco o nada entendemos e, exatamente por isso, podemos usar animais, seres vivos como nós, como se fossem coisas, objetos quaisquer e que ao fim de sua utilidade podem ser largados em qualquer lata de lixo, como quem descarta um brinquedo velho que se quebrou por longos anos de uso.

Definitivamente não espero que meus textos consigam mudar alguma coisa, mas ao menos espero que a relação entre a ficção e o tema não se esgote pelas próximas décadas, e que pessoas geniais como Wells, Coetzee, Morrison e Quitely consigam sempre nos trazer uma luz sobre temas tão pesados como a relação entre seres humanos e outros animais. E que essa relação um dia possa ter o mesmo respeito que, na maioria das vezes, todo animal fora de nossa ameaça tem para conosco.

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  • Link para a Parte 1 AQUI

  • Link para a Parte 2 AQUI

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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