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Espetáculo Amadores: olhando para trás e para frente ao mesmo tempo

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Valter e suas questões sobre os seus semelhantes…

Na peça “Amadores” é indispensável atentar para o monólogo inicial em que Valter (interpretado por Luiz Fernando Vaz), um dos personagens, abre a peça. Em sua fala inicial o jovem Valter entrega os pontos da complexa e intrincada peça de Pedro Sette-Câmara, mas só fica claro que é no começo que as respostas estão, quando o fim se concretiza. Ou seja, Valter é medíocre em vida, será em morte provavelmente. Mas só se percebe isso tarde demais…

“Amadores” é uma peça – e na verdade muito mais um lindíssimo texto acima de qualquer coisa – que brinca com a percepção do espectador ao jogar com a narrativa através de um intrincado processo de sobreposição de tempo, de seu fluxo em uma leminiscata (o símbolo matemático do infinito que os ignorantes adoram dizer que é um “oito dormindo”), de pontos de vistas diferentes de um mesmo instante no tempo, de posições espaço-temporais desconhecidas por nós, mas que permitem aos personagens nos contar, de forma aparentemente aleatória, pontos chave de uma trama, aparentemente banal.

Mas “Amadores” é isso e sobre isso: Parecer uma coisa e ser outra. Valter é aquele típico intelectual mala, chato mesmo, que olha para dentro de si e de sua inteligência e de seus gostos refinados e acha que por ser o que é o mundo deve se prostar diante dele e lhe render glórias, afinal, todo gênio é um inconpreendido e vítima do mundo vazio que o rodeia… sim, Valter é mala, gosta de Schubert e quer passar a vida recitando poesias… não que isso seja ruim, mas só isso não é suficiente para conquistar ou reconquistar a jovem e linda Carlota (interpretada por Karol Amaral).

Carlota é uma moça normal, normal demais para uma personagem de teatro, principalmente em uma peça como “Amadores”. Não, isso não é uma crítica, é que a representação humana é tão simples, que é de se estranhar ver uma personagem de ficção ser extremamente real, a ponto de ser simples, superficial e desinteressada em chatos como Valter. Afinal a vida imita a arte e vice-versa, então, no mundo real, qualquer mulher como Carlota daria um chute em um mala cheio de pensamentos filosófico-existecialistas românticos como é nosso amigo Valter… Sem falar que tanto a atriz quanto a personagem são mulheres de extrema beleza, dessas que fazem homens feios e chatos rastejarem por elas sem que elas precisem fazer lá muita coisa além de serem lindíssimas. E Carlota não faz… não fez… não fará nada… dependendo de que camada de tempo nos é mostrada ou quando nos é mostrada em cena.

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O ferino e mordaz Guilherme se confronta com o amigo Valter e com a esposa Leonora

 Bom, mas essas camadas de tempo não são aleatoriamente mostradas ou simplesmente jogadas umas sobre as outras sem sentido. Os pilares do que teria tudo para ser uma peça adolescente romantica e bobinha, no texto de Sette-Câmara virou um jogo de relações cruzadas entre o quarteto de amigos Valter, Carlota (seu amor eterno a quem deseja recitar poesia por toda a eternidade, pobre coitada), de um lado e do outro lado temos o casal Guilherme (Rony Hofstatter) e Leonora (Maíra Monteiro) – ambos magnânimos – travando uma constante disputa de casal cujo casamento já passou pela crise da traição por parte de Guilherme e motivo de sobra para Leonora, sempre enérgica e brigona, jogar este fato em rosto para o marido.

Simples não é? Não, não é. Leonora, mulher de Guilherme cuja veia mordaz e irônica não para quieta, já teve, no passado, um envolvimento com Valter anos antes, um relacionamento de jovens, cheios de aventuras, de planos e de projetos que nunca se concretizaram… principalmente a viagem para Paris… Mas nada disso terminou à toa, Carlota, sempre ela, normal e linda, é o centro de gravidade de todas as atenções de Valter e claro, responsável pelo fim do interesse deste para com Leonora que tempos depois encontra no melhor amigo de Valter, Guilherme, um novo aconchego.

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E finalmente a “Voz Elegante” ganha materialidade discursiva… e Valter, o mala, com Carlota

Mas Guilherme está doente, internado em um hospital com uma doença cujo diagnostico não revela nem ao amigo Valter, a menos que este resolva procurar Carlota e declarar novamente seu grande amor à moça… Apesar de Valter achar que basta ele ser o que é para que Carlota tenha que simplesmente voltar aos seus braços. Já Leonora só quer que Carlota saia de seu caminho, pois sua aproximação de Guilherme é dúbia, cheia jogos e brincadeiras insinuantes, típicas dessas mulheres normais e por isso mais encantadoras e fatais… e Leonora sabe disso. Assim temos um quadrado amoroso estranho, instável, pois ao que tudo indica, Guilherme e Carlota tem algo a mais entre eles, assim como um dia, Valter e Leonora também tiveram.

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O momento derradeiro do grupo de amigos

No pequeno espaço do quarto de hospital, numa ante-sala de espera, em um elevador e em um espaço mais amplo com um pequeno banquinho que se dá a ação do espetáculo, com as camadas de tempo e de situações se sobrepondo umas as outras, bem como os diálogos… em “Amadores” não há aquela pausa entre dar uma fala e outro ator dar a outra fala, é verbo chiando direto, tal qual acontece quando duas pessoas estão discutindo na vida real. Eu não me calo e espero você falar, eu falo por cima, falo mais alto e você também…

E não são só os quatro personagens e a platéia que vivenciam tudo isso, pois somos todos espreitados pela misteriosa “Voz Elegante” que atormenta Valter, que o impulsiona e o impele aos mais variados questionamentos, mesmo que o toupeira do Valter ache que está sempre certo, o misterioso dono da “Voz Elegante” nos diz que o caminho não é bem esse.

Por sua forma complexa de narrar em camadas de tempo sobrepostas, mostrando ora passado, ora presente e com um texto elaborado bem ao estilo pop-cult falando de grandes poetas, grandes compositores de ópera, “Amadores” também fala de Jakie Chan e filmes de Kung-Fu de uma forma tão natural que nos sentimos diante da mais pura representação do cotidiano onde uns são simples demais e outros complexos demais para dividirem entre si um amor ou uma amizade que seja.

Em sua tentativa de auto-superação e, conseqüentemente, redenção de si e conciliação do mundo ao seu redor, Valter vai adiante, fazendo asneira atrás de asneira, criando conclusões estranhas a respito do que deve fazer lembrando de Ícaro e suas asas derretidas pelo Sol, refletindo sobre o que é causa e o que é conseqüência no ato de um homem se jogar de um edifício. E assim conhecemoss presencialmente, em mais uma estranha camada de tempo, a materialização do misterioso “Voz Elegante” para dar um parecer sobre Valter e sua sucessão de equívocos e erros de julgamento, de si e de seus amigos.

Mas é tarde demais, não há redenção na vida real e nem na ficção, porque “Amadores” de Pedro Sette-Câmara é real demais para ser teatro de redenção e de finais românticos. E Valter, Valter é e sempre será um grande tolo.

No mundo real ninguém ama os tolos e os edifícios não tem a decência de desabar enquanto o Ícaro se afoga após ter suas asas de cera derretidas pelo Sol…

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É Designer de produtos e gráfico, desenhista nas horas vagas e aos trancos e barrancos um estudioso de Semiótica. Nutre estranhas fixações por processos narrativos experimentais e acredita que o mundo caminha para ser cada vez mais parecido com um Game

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